
O estudo das causas da disgrafia é complexo, pois são muitos os fatores que podem
levar a uma escrita alterada.
Torres & Fernández (2001) agrupam em três tipos as causas da disgrafia: maturativas,
carateriais e pedagógicas. As primeiras estão relacionadas com perturbações de lateralidade
e de eficiência psicomotora (motricidade, equilíbrio). Estas crianças são desajeitadas do
ponto de vista motor (geralmente possuem idade motora inferior à idade cronológica) e
apresentam uma escrita irregular ao nível da pressão, velocidade e traçado, bem como
perturbações de organização percetivo-motora, estruturação/orientação espacial e
interiorização do esquema corporal. As causas carateriais, por seu lado, estão associadas a
fatores de personalidade, que podem, consequentemente, determinar o aspeto do grafismo
(estável/instável, lento/rápido), e também a fatores psicoafetivos, pois o sujeito reflete na
escrita o seu estado e tensão emocionais. As últimas – causas pedagógicas – poderão estar
relacionadas, por exemplo, com uma instrução/ensino rígido e inflexível, com uma mudança
inadequada de letra de imprensa para letra manuscrita e/ou uma ênfase excessiva na
qualidade ou rapidez da escrita.
Um outro autor, Cinel (2003), apresenta-nos cinco grupos de causas promotoras da
disgrafia:
- Distúrbios na motricidade ampla e fina, relacionados com a falta de coordenação
entre o que a criança se propõe fazer (intenção) e o que realiza (perturbações no domínio do
corpo);
- Distúrbios na coordenação visomotora, associada à dificuldade no
acompanhamento (visual) do movimento dos membros superiores e/ou inferiores;
- Deficiência na organização temporoespacial (direita/esquerda, frente/atrás/lado e
antes/depois);
- Problemas na lateralidade e direccionalidade (dominância manual);
- Erros pedagógicos, relacionados com falhas no processo de ensino, estratégias
inadequadamente escolhidas pelos docentes ou mesmo desconhecimento deste problema.
Caraterização
Vários autores têm sugerido caraterísticas comuns às crianças com disgrafia.
Contudo, é importante saber que a apresentação de apenas um/dois dos comportamentos
que se seguem não é suficiente para confirmar esta problemática; a criança deverá revelar o
conjunto (ou a quase totalidade) das seguintes condições:
- letra excessivamente grande (macrografia) ou pequena (micrografia);
- forma das letras irreconhecível (por vezes distorcem, inclinam ou simplificam tanto
as letras que a escrita é praticamente indecifrável);
- traçado exagerado e grosso (que vinca o papel) ou demasiado suave e impercetível;
- grafismo trémulo ou com uma marcada irregularidade, originando variações no
tamanhos dos grafemas;
- escrita demasiado rápida ou lenta;
- espaçamento irregular das letras ou das palavras, que podem aparecer desligadas,
sobrepostas ou ilegíveis ou, pelo contrário, demasiado juntas;
- erros e borrões que quase não deixam possibilidade para a leitura da escrita
(embora as crianças sejam capazes de ler o que escrevem);
- desorganização geral na folha/texto;
- utilização incorreta do instrumento com que escrevem (Ajuriaguerra et al., 1973 e
Casas, 1988, cits. por Cruz, 2009; Torres & Fernández, 2001).
Poderão ainda observar-se uma série de outros comportamentos, muitas vezes
associados a outras dificuldades específicas de aprendizagem (Disortografia, Dislexia e
Discalculia), abordadas nos restantes subcapítulos deste artigo.
Intervenção
A experiência diz-nos que, para ajudar um aluno com disgrafia – assim como com
qualquer outro distúrbio –, o educador deve, primeiramente, estabelecer uma boa relação
com a criança e fazê-la perceber que a sua presença é importante para a apoiar quando mais
precisa.
É fundamental saber/sentir quando e qual a ajuda que deve providenciar a cada
momento, não deixando de elogiar a criança pelo seu esforço, mesmo que os resultados
nem sempre estejam de acordo com o expectável; no entanto, deve também ter a
capacidade de perceber quando o aluno revela desmotivação e desinteresse e, se
necessário, alterar a intervenção, adequando procedimentos visando estimular a criança,
pois, na maior parte das ocasiões, a má prestação é sobretudo nossa, consequência da
utilização de estratégias/métodos insuficientemente atrativos e interessantes. Por este
motivo, deve evitar-se aplicar métodos “chapa 5”, generalizados e inflexíveis.
Outro aspeto bastante importante é o reforço positivo da caligrafia da criança.
Lembre-se que ela se esforça bastante por escrever corretamente e, mesmo que não
observe grandes progressos, vá elogiando os (escassos) resultados. Afirmações como “Esse
«p» ficou mesmo perfeito!”; “Tiveste o cuidado de não ultrapassar a margem, muito bem!”;
ou “Hoje a tua letra está mesmo bonita! Andas a esforçar-te muito!”, poderão surtir efeitos
extraordinários! O processo de aprendizagem da escrita é lento e longo e a criança é a
primeira a achar a sua letra horrível. Deve evitar-se, por isso mesmo, forçá-la a modificar
abruptamente a sua caligrafia.
Devem, também, contemplar-se os aspetos psicomotores, que determinam a
capacidade gráfica do indivíduo.
Para Camargo (2008) a reeducação do grafismo está relacionada com três fatores
fundamentais: desenvolvimento psicomotor, desenvolvimento do grafismo em si e
especificidade do grafismo da criança. Para o desenvolvimento psicomotor, deverão treinarse aspetos relacionados com a postura, controle corporal, dissociação de movimentos,
representação mental do gesto necessário para o traço, perceção espácio-temporal,
lateralização e coordenação visomotora. Quanto aos aspetos relacionados com o grafismo, o
educador deve preocupar-se com o aperfeiçoamento das habilidades relacionadas com a
escrita, distinguindo atividades pictográficas (pintura, desenho, modelagem) e
escriptográficas (utilização do lápis e papel – melhorar os movimentos e posição gráfica).
Deverá, também, corrigir erros específicos do grafismo, como a forma/tamanho/inclinação
das letras, o aspeto do texto, a inclinação da folha e a manutenção das margens/linhas.
Torres & Fernández (2001) acrescentam ainda a necessidade de se contemplarem
técnicas de relaxamento global e segmentar, que podem ajudar a criança a reduzir os índices
de ansiedade, stresse, frustração e também baixa autoestima. Como sabemos, estas crianças
são, na sua generalidade, alunos tímidos, sossegados (mas inquietos internamente), com
motivação/interesse pela escola reduzidos e com baixos níveis de autoestima e
autoconceito.
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